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Conheça o lendário jornalista de Piracicaba, fonte de consulta para diversos jornais de todo o País



 Elisabeth Marques - Piracicaba (SP)

  A entrevista com o lendário jornalista de Piracicaba Delphim Ferreira da Rocha Netto, ou simplesmente Rocha Netto, estava marcada para as 13h30. O atraso de cerca de 20 minutos para atender a reportagem permite uma bisbilhotada rápida ao ambiente onde parecia estar toda a história do futebol. Centenas de fotos de personalidades esportivas como Pelé e Garrincha “decoravam” o local cheio de quadros, arquivos de jornais, revistas e dezenas de homenagens. Um verdadeiro mergulho ao passado do futebol que enche os olhos até de quem não é fanático pelo esporte.
  A bisbilhotada é interrompida quando um senhor, caminhando a passos lentos, com o apoio de uma bengala e de uma moça, entra e, com uma voz mansa, fala: “boa tarde”. Era Rocha Netto. O traje esportivo usado por ele (calça, camiseta e tênis) denuncia que, aos 90 anos, o jornalista aposentado e ex-jogador de futebol ainda respira o esporte. Com um pouco de dificuldade em movimentar as pernas, caminha em direção a uma cadeira, encosta a bengala e senta-se. Era dado o início a uma conversa que duraria cerca de três horas.
  Dono de uma memória invejável, o jornalista, que passou por veículos de comunicação como a extinta A Gazeta Esportiva, Jornal de Piracicaba, Correio de São Carlos, Diários Associados, Rádio Pan Americana e Diário de Piracicaba, relembra um passado dedicado ao esporte que começa aos seis anos de idade. “Com essa idade eu jogava botão. Chegamos a implantar o futebol de botão em Piracicaba”, conta ele, que mora no município desde 1916. Sua cidade natal é Itu, onde nasceu no dia nove de junho de 1913, numa família composta por mais cinco irmãos. Também durante a infância começou a colecionar coisas sobre esporte, em especial sobre o futebol, que hoje formam o Arquivo Esportivo Rocha Netto, fonte de consulta para diversos jornais do País. Ele está abrigado em uma área de 1,4 mil metros quadrados, em dois imóveis, no Centro de Piracicaba.
  A história desse jornalista, que foi jogador de futebol e fiscal da Secretaria Estadual da Fazenda, pode ser contada a partir da observação das fotos expostas em seu próprio acervo. Um história que mistura paixão e dedicação. É mostrando uma das fotos antigas, de 1906, onde seu pai, Francisco Nazaré da Rocha, aparece numa partida de futebol, que Rocha Netto explica o início do fanatismo pelo esporte. “Ele era meu espelho. Não cheguei a vê-lo jogar, mas sei pelas histórias que me contavam e pelas fotos que tenho”, recorda ele, que perdeu o pai aos quatro anos de idade, vítima de complicações decorrentes de um acidente de trabalho.
  Depois de uma carreira de cerca de 30 anos no futebol amador, jogando como goleiro, Rocha Netto encerrou sua atuação no esporte em 1944, após machucar-se numa partida contra o Palmeiras da Cidade Alta, time que revelou De Sordi, lateral-direito da Seleção Brasileira na Copa de 1958. Rocha Netto jogava no Paulista Futebol Clube, de Piracicaba. Teve ferimentos na cabeça e na mão esquerda.
  A carreira jornalística começou em 1930. Naquela época não era exigido registro profissional para o trabalho. Rocha Netto, formado no curso técnico em Contabilidade, escrevia para os jornais nas horas livres, quando não estava a serviço da Secretaria Estadual da Fazenda. Seus primeiros passos na Imprensa foram como colaborador do Jornal de Piracicaba. Passou por veículos importantes com a extinta A Gazeta Esportiva, que parou de circular em 19 de novembro de 2001. Uma despedida melancólica, registrada numa edição de 14 mil exemplares. Quase nada para o jornal que chegou a uma tiragem de 534 mil exemplares no final da Copa de 1970. Rocha Netto chegou a ser chefe de reportagem do jornal quando havia uma sucursal em Piracicaba.
  Da época em que passou pelo diário, que hoje sobrevive apenas na versão on line, o jornalista tem bons casos para contar. Histórias que estão guardadas em arquivos com todas publicações de A Gazeta Esportiva, do primeiro ao último exemplar. Uma dessas histórias se passou numa quinta-feira do mês de setembro, em meados da década de 50, em um restaurante de São Paulo, onde o piracicabano se reunia com os amigos do jornal para tomar aperitivos e falar sobre esporte. Conta ele que, durante a conversa, o diretor da revista A Gazeta Esportiva Ilustrada - publicação que era braço da Gazeta e circulava aos finais de semana -, Élcio Castro, pediu que ele fizesse uma reportagem para edição que circularia no sábado.
  Na hora, Rocha Netto disse que iria escrever sobre o passatempo do jogador Idiarte, que nas horas vagas gostava de pescar. Ele era um dos craques do XV de Piracicaba. Entre uma aperitivo e outro, Rocha Netto não havia se dado conta de que estava em cima da hora para agendar a entrevista com o jogador e entregar a reportagem no outro dia, quando a revista seria impressa.
  “Quando saíamos do restaurante, ele (Élcio Castro) reforçou que precisava da matéria e eu disse que estava brincando, pois estava muito em cima da hora para fazer uma reportagem. Algumas horas depois, ele me levou até a Gazeta, fomos até o maquinário onde estava sendo impressa a capa da revista e uma das chamadas era: ‘Idiarte virou pescador, de Rocha Netto’. Aí eu não falei mais nada”. Voltou para Piracicaba e marcou uma entrevista com o jogador para as 7h de sexta-feira. No outro dia, chegou à casa de Idiarte no horário combinado, junto com o fotógrafo.
  Para desespero de Rocha Netto, que corria contra o tempo, o jogador estava tomando café, o que representava um atraso em seu trabalho. “Ele acabou de tomar café, fiz a entrevista, demos uma volta pela cidade, fomos até o Rio Piracicaba, levamos uma vara de pescar, ele fingiu que estava esperando o peixe e tiramos a foto. Escrevi quatro páginas. Peguei meu carro e corri para São Paulo. Estava em cima da hora para a revista fechar, o pessoal estava desesperado. Todo mundo perguntava: ‘cadê o Rocha Netto, ele sumiu? Cheguei às 16h e entreguei minha matéria na mão do Élcio de Castro. Mas foi um sufoco”.
  Histórias de encontros que teve com ídolos do futebol estão frescas na memória de Rocha Netto e voltam ao presente em fotos expostas no acervo. Numa delas, o jornalista aparece entrevistando o rei Pelé, na época jogador do Santos, após uma partida com XV de Piracicaba, em 1972. A partida, lembra, ficou na história porque quebrou um longo tabu contra o Santos, vencendo por 1 a 0. “Desde 1949 o XV nunca ganhava do Santos. Na época perguntei a Pelé se ele estava aborrecido e ele respondeu: claro que estou, o Santos tanto tempo sem perder para o XV foi perder justo comigo jogando?”.
  Também lembra de colegas de profissão como o saudoso Thomaz Mazonni, que conheceu nos tempos de A Gazeta Esportiva. O jornalista ficou marcado como uma lenda do esporte nacional. Seu nome, segundo reportagem da Revista Imprensa de dezembro de 2001, batizou diversos centros esportivos e escolinhas de futebol pelo Brasil. Em 1938, época em que o Brasil vivia uma fase de expansão junto com a metropolização das cidades, Mazonni foi um dos principais responsáveis pela ida do Brasil à Copa do Mundo da França. Graças aos seus textos e a uma campanha que ele criou em A Gazeta Esportiva, chamada “Campanha do Selo”, a Seleção conseguiu arrecadar recursos suficientes para participar do campeonato mundial.
  A marca de Mazonni continua presente no futebol brasileiro. Ao longo de sua carreira, o jornalista criou um vasto vocabulário esportivo que se imortalizou junto com o esporte. Algumas de suas pérolas são “derbi” - para indicar um Corinthians e Palmeiras - ou “majestoso” - para o clássico entre Corinthians e São Paulo. “Ele era editor-chefe da Gazeta. Infelizmente já morreu. Nós conversávamos muito, trocávamos sugestões. Para mim, ele foi o maior jornalista esportivo”, relembra Rocha Netto.
  Ele teve o privilégio, em seu quase um século de existência, de acompanhar 17 Copas do Mundo. O Brasil participou de todos os Mundiais, desde a primeira edição, em 1930, e faturou, por cinco vezes, o título de campeão do mundo. Mas a Copa de 1958 é a mais marcante para o jornalista esportivo, torcedor do São Paulo. “Foi nossa primeira vitória. Naquela época, os principais destaques eram Garrincha e Pelé - o melhor. Era uma equipe imbatível. Para mim, o futebol joga-se de 11 para 11. Mas Pelé é Pelé”, comenta.
  Rocha Netto comemora o penta conquistado no ano passado, mas não fala de craques como o fenômeno Ronaldinho com a mesma empolgação que se refere a Pelé, Garrincha e Leônidas da Silva. A postura tem uma explicação. “Eu acho o futebol antigo mais importante. Naquele tempo, os jogadores jogavam por amor e não só pelo dinheiro. Não condeno os que jogam pelo dinheiro, mas uns ganham muito e outros nada”. Ele emenda a conversa fazendo uma crítica à Imprensa atual. “Ela também perde para a de ontem. Hoje vale mais o escândalo que o jogador. Se comete uma falta em qualquer jogo já ganhou uma manchete. O futebol hoje é bom, joga-se bem, mas a Imprensa não consegue mostrar isso”.

RELÍQUIAS

  No acervo de Rocha Netto são encontradas verdadeiras relíquias do futebol brasileiro e internacional, arquivadas desde 1919. Entre elas, um pôster do Corinthians, de 1930, quando foi campeão paulista. Sua dedicação e paixão ao trabalho de jornalista esportivo são comprovadas quando se depara no lugar com blocos de anotações nos quais registrava as informações para produzir as reportagens. As folhas amareladas estão guardadas no meio de vários livros onde estão edições antigas de diversos jornais.
  Ele também guarda até hoje as anotações que fez para escrever dois livros que contam a história do XV de Novembro. O primeiro volume conta a história do clube de 1913, data em que foi fundado, até 1946. O segundo traz o restante da trajetória, até 1990. O dinheiro arrecadado com a venda dos livros foi doado para entidades assistenciais de Piracicaba.
  No acervo encontram-se, ainda, todas as fichas técnicas dos jogos do XV de Piracicaba, que estão encadernadas, ano a ano, acompanhadas com reportagens dos jogos, além de fotografias também de outros clubes. Entre as centenas de homenagens recebidas pelo jornalista Rocha Netto está o diploma de mérito profissional concedido pela Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo.
  O acervo do jornalista é cobiçado. Rocha Netto diz que recebeu propostas milionárias para vendê-lo, mas recusou todas. Uma das sondagens, recorda, foi feita pelo jornalista esportivo Juca Kfouri, durante passagem por Piracicaba para uma palestra na Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba). “Nós conversamos na reunião, antes da palestra. Ele disse: ‘Rocha Neto, como vai seu arquivo? Eu respondi: ‘vai bem’. Ele perguntou: ‘você tem recebido muitas propostas para desfazer-se deste arquivo? Disse: ‘tenho’. Ele respondeu: ‘quanto é que vale seu arquivo? Disse: ‘meu arquivo vale minha vida e não tem preço’. Acabou ali a conversa. Fomos para a palestra e um jornalista perguntou a Juca: ‘Por que a Placar (revista Placar) não compra o arquivo do Rocha Neto? E o Juca disse: ‘a Placar não tem dinheiro para comprar o acervo do Rocha Netto’. O jornalista falou: ‘como não tem, a Placar é uma revista rica! E o Juca respondeu: ‘Mas o arquivo do Rocha ninguém tem dinheiro para comprar porque há pouco ele me disse que o acervo valia a vida dele e a Placar não tem dinheiro para comprar uma vida’”.
  Quem vai ficar com o acervo do jornalista é a Unimep. Segundo o a Assessoria de Imprensa da universidade, no ano passado foi formalizada a doação do material para a instituição de ensino. As relíquias do futebol devem ser armazenadas no Centro Cultural da Unimep, onde estão abrigados outros acervos. “Achei que a universidade estava em condições de tratar do meu acervo com o mesmo carinho que eu tenho tratado até hoje” , disse Rocha Netto.
  Sem escrever desde 1998 em decorrência de várias doenças, entre elas uma espécie de atrofia nos pés, que dificulta sua locomoção, Rocha Netto divide o dia entre idas ao médico e dedicação ao seu acervo. É presidente de honra do XV de Piracicaba e da Associação Atlética Ademir Luiz de Queiroz. O quadro clínico piorou, há três anos, após a morte da sua esposa, a dona de casa Yara Moreira Freire da Rocha, com quem viveu 65 anos e teve três filhos: o fiscal de renda Weimar, o engenheiro civil José Carlos e o contabilista Delfim. Todos levam o sobrenome do pai. Após a morte da esposa, Rocha Neto contratou a jornalista Angela Rodrigues dos Santos para organizar os documentos do acervo e também atender aos telefonemas de vários jornais do País que buscam informações antigas sobre o futebol.
  “Antes da morte da esposa ele fazia tudo, mas depois ficou muito sozinho, deprimido, então eu o ajudo a localizar informações e passar para a Imprensa. Tenho aprendido muito com ele sobre a história do futebol da minha cidade e do País inteiro”, conta Angela, que está escrevendo uma biografia do jornalista, ainda sem data para ser concluída.
  Saudoso da vida de repórter e também da mulher, a quem revela profunda admiração, Rocha Netto conta que escrevia, na maioria das vezes, à noite. Lembra quando dona Yara acordava com ele escrevendo e dizia: “Delphim, vem dormir, é tarde!”. Em tom de brincadeira, o jornalista respondia: “Yara, é cedo, são só cinco da manhã”.
  Ao relembrar a história, Rocha Netto estampa um sorriso no rosto. Depois, faz um longa pausa, com um olhar distante, como se estivesse fazendo uma viagem ao túnel tempo. São saudades de um passado dedicado ao futebol.

 

Fonte: http://www2.uol.com.br/tododia/ano2003/julho/130703/esporte.htm